Académico 5 - Profissão?
Soldado - Soldado.
Acad. 2 - Profissão, dissemos profissão.
Soldado - Soldado.
Acad. 4 - Mas isso não é profissão. Ora diga-me o que fazia em tempo de paz.
Soldado - Paz?
Acad. 4 - Sim, paz. Não sabe o que é? (O Soldado fica em silêncio, atónito.)
Acad. 5 - O réu não sabe o significado da palavra paz.
Acad. 2 - É natural. Desacostumou-se dela.
Acad. 3 - Deve ter-se esquecido. Um caso curioso de amnésia. O hábito que se tornou obsessão.
Acad. 5 - E quanto à profissão?
Acad. 2 - O réu já declarou: soldado.
Acad. 4 - Mas isso não é profissão. Profissão é com que se ganha a vida. Ora um soldado não ganha a vida. O menos que lhe pode acontecer é perdê-la.
Acad. 3 - Foi o que aconteceu a este.
Acad. 2 - A este senhor?
Presidente - Naturalmente. Ora vejamos. Recapitulando: identidade, desconhecida. Profissão, soldado. É fácil concluir que o réu é o Soldado Desconhecido.
[…]
Acad. 3 - Se este senhor é o Soldado Desconhecido, tem muita sorte. Os meus parabéns. Têm-lhe feito muitos monumentos.
[…]
Soldado - Mas não sabem quem eu sou.
Acad. 5 - Ah, não faz mal. até é mais sugestivo assim. O senhor é um símbolo, uma abstracção. A parte tomada pelo todo. Sabe, o senhor é um herói.
Soldado - Um herói?
Acad. 4 - Bem, é o que dizem. O senhor deu a vida pela pátria.
Soldado - A pátria?
Acad. 2 - Bem, é o que dizem. Só estamos a repetir o que temos ouvido dizer.
Presidente - Mas isso não interessa para aqui. Trata-se agora dum julgamento. O réu não precisa de ser esclarecido acerca dos boatos que correm a seu respeito. Trata-se apenas de interrogá-lo e deliberar a sentença. Recomecemos o interrogatório.
Acad. 5 - Dá-me licença? Só uma pergunta. O senhor é um homem livre?
Soldado - Livre?
[…]
Acad. 3 - Um curiosíssimo caso de amnésia.Fiama Hasse Pais Brandão. Os Chapéus de Chuva (1961).